Etnias do Gaúcho: Rio Grande, Terra de Muitas Terras – Negros

Hoje falaremos sobre a contribuição e a invisibilidade dos negros na história do Rio Grande do Sul, seguindo a série sobre as Etnias do Gaúcho.

De cara já trago a mostra folclórica da prenda mirim Rebeca Dias Gouvea, de Pelotas. Sou fã dela desde que a encontrei no youtube, não a conheço mas admiro muito pelas suas apresentações e discursos fortes. Nesse vídeo ela apresenta uma brincadeira que os escravizados brincavam:

Sobre o negro, muitos acreditam que eles chegaram no Rio Grande do Sul em 1725, com a frota de João Magalhães, outros acreditam que ele adentrou em 1737, na construção do forte Jesus-Maria-José. Outros ainda acreditam que a chegada do negro foi em 1780, com as charqueadas, trabalhando na condição de mão de obra escrava.

O professor de história Jorge Euzébio Assumpção lembra que o Rio Grande do Sul tem “mais anos com presença de mão-de-obra escravizada do que sem”. O negro é secundário ou não é citado, afirmou ele, citando um “racismo historiográfico”. A participação dos negros na Guerra dos Farrapos, a qual é “envolta em mitos” e romanceada, de acordo com ele.

Os negros constituíram o “alicerce do Exército” dos farroupilhas, assinalou o professor. “A infantaria dos farrapos era basicamente feita de negros”. Lembrando que infantaria são os primeiros na guerra, a linha de frente. Indígenas e negros eram “bucha de canhão” nessa guerra, disse Jorge. Os negros que lutavam ao lado dos farrapos eram escravos do Império que haviam sido capturados pelos rebeldes, e houve um acordo entre as partes: “lutem por nós e vamos libertá-los” era o trato oferecido pelos líderes farroupilhas aos negros.

No entanto, os “farrapos nunca foram democráticos”, de acordo com o professor. Durante o conflito, armavam-se acampamentos diferentes, em que as raças não se misturavam, segundo ele. Igualmente, os farrapos “nunca foram abolicionistas”, e, caso eles tivessem derrotado o Império, a escravidão continuaria, pois “todos os líderes farrapos eram escravistas”, afirmou Jorge.

Em 1844, já ao final da guerra (1835-1845), os farrapos estavam vencidos, e os “negros lutando a seu lado eram um empecilho”, afirmou o professor. O Império, nas tratativas de paz com os rebeldes, não aceitava que eles fossem libertados, pois formariam uma “massa sem controle que não iria mais se submeter a um senhor”, notou Jorge. Foi nesse contexto em que ocorreu a traição de Porongos, um “banho de sangue” em que os negros foram “vilmente traídos” pelos farroupilhas para que fosse feito o acordo de paz

As ideias de que quase não havia negros e escravos no estado são uma “sonegação” e uma “inverdade histórica”, disse Jorge. Os números de um censo realizado em 1814 revelam que o Rio Grande do Sul era composto por mais não-brancos – somando indígenas, escravos, negros libertos e recém-nascidos – do que por brancos.

À época, a economia do estado girava em torno de algumas cidades, “que dependiam da mão-de-obra escravizada”. Em Pelotas, “a cidade mais rica e mais produtiva do Rio Grande do Sul graças às charqueadas”, os trabalhadores escravizados eram maioria. Os brancos não chegavam a 30% da população dessa cidade. No auge do charque, 85% das exportações gaúchas vinham das charqueadas, e quem trabalhava nelas eram os negros, afirmou Jorge. De acordo com ele, o homem livre, o gaúcho, que vivia na vadiagem e se sustentava com o contrabando, “não se sujeitava ao trabalho árduo das charqueadas”.

O professor concluiu sua apresentação afirmando que “nossa história tem cor, raça, classe e sexo”. Para ele, “nós normalmente contamos a história da elite e dos brancos”. “Há toda uma história por baixo do tapete que não é contada” e que derrubaria diversos mitos históricos do estado e do país, afirmou o professor.

A contribuição cultural do povo negro é riquíssima. Os negros nos legaram o quibebe, mocotó, feijoada (na culinária), as palavras cacimba, xerenga, sanga, matungo, a Umbanda, a Linha-cruzada, a Congada, enfeites, berloques, mas vai muito além dessas.

Aqui no RS temos o Sopapo, o tambor afro-gaúcho, e o Cabobu, movimento que reuniu diversos artistas percussionistas e ressignifica a tradição musical originando um som específico afro-rio-grandense. O Batuque das Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, da cultura popular que traz do Maçambique de Osório.

É importante conhecer e valorizar a cultura negra para além da história da escravidão. Falar sobre as grandes figuras da história nacional: do cantor Lupicínio Rodrigues, César Passarinho, Oliveira Silveira, importante liderança do movimento negro desde a década de 1970 e um dos proponentes pioneiros da instituição do 20 de novembro como dia da consciência negra. A professora Dra. Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, relatora do parecer que estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.  Deise Nunes, a primeira Miss Brasil negra; Malu Viana, Nei D´Ogum e tantos outros e outras….

Questionar algumas histórias e problematizar é importante para desenvolver o pensamento crítico. Assim como a prenda Rebeca refletiu: Quem fazia os doces de Pelotas? Eram as estancieiras ou as escravizadas?

Para saber mais:

Aqui uma palestra do professor Jorge Euzébio, e de onde copiei descaradamente a maior parte do texto: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/185-noticias-2016/562518-o-negro-no-rio-grande-do-sul-uma-historia-de-omissao-e-esquecimento

https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/opiniao/2022/02/06/silenciamento-historico-tem-negros-no-rio-grande-do-sul.htm?cmpid=copiaecola

Nossa Senhora Gaúcha do Mate

É hoje, dia 10 de julho que celebramos o dia da Nossa Senhora Gaúcha do Mate, padroeira do Mercosul.

Diferente de outros santos e santas não teve origem em aparições ou milagres. A devoção é uma homenagem dos gaúchos à Maria.

No Natal de 1992, alguns bispos sul-americanos visitaram o Papa João Paulo II e entregaram para ele alguns presentes típicos da região pampeana e junto com esses presentes estavam um quadro da irmã marista e pintora Maria Inês Rosnhiski, que retratou Maria com roupas simples e tomando um mate junto ao braseiro, bem como toda a gente de seu povo. Nossa Senhora Gaúcha do Mate

Ela surgiu para cristalizar o amor pelo mate. Um ritual em que se expressa o símbolo da amizade e da família, do encontro e da partilha e que fortalece e cria novos vínculos entre irmão e amigos. A invocação à santa é quase tão antiga quanto este ritual. Por isto um grupo de leigos e os padres salesianos da província argentina de Missões, liderados pelo sacerdote Domingos Lancelotti, encabeçaram um movimento junto à Santa Sé a fim de obter o reconhecimento à essa nova devoção mariana. João Paulo II, fervoroso devoto da Virgem, visitou oficialmente a Argentina em 1982 e 1987. Nas duas ocasiões foi fotografado tomando mate e presenteado com muitos mates e cuias para aprecia-lo. Também recebeu importantes testemunhos favoráveis à devoção de Nossa Senhora Gaúcha do Mate como evangelizadora e reflexo da cultura deste pedaço da América.

Assim, no dia primeiro de maio de 1993, o Núncio Apostólico Argentino recebeu um documento escrito e assinado pelo Papa João Paulo II, onde se lê: “De todo coração outorgamos a implorada benção apostólica, sob os auspícios de Nossa Senhora Gaúcha do Mate.” Então, o dia 10 de Julho torna-se o dia de Nossa Senhora Gaúcha do Mate, agora oficialmente portadora dos desejos de unidade, fraternidade, amizade e encontro entre os homens.

Gaúcha é uma palavra que significa pessoa nobre e generosa, usado para identificar os povos originários das planícies dos Pampas do sul da América do Sul. Mate é uma infusão obtida com as folhas da planta “ilex paraguayensis”, amplamente consumida pelas famílias da Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia, Chile e do sul do Brasil.

Cada localidade tem sua particularidade na hora do preparo e consumo. Neste ritual, a exemplo do chá, se expressa o símbolo da família, amizade, encontro e partilha, entre irmãos e amigos, que fortalece e cria novos vínculos. É uma celebração plena de conteúdo humano, cristão e muito regional.

O quadro original da imagem foi entronizado na igreja da Cidade dos Apóstolos da província das Missões, na Argentina. Sua festa é celebrada na abertura da Exposição anual da Erva Mate, que ocorre sempre na primeira quinzena de julho nesta cidade. Na solenidade de 1994, ela foi proclamada ‘Padroeira da Erva Mate’ e uma estátua esculpida em madeira, conforme a original, colocada em uma gruta de pedra ao lado do pavilhão de exposições.

Música tema dos Festejos Farroupilha de 2022

Num só lugar

Fernando Espindola e Thomas Facco

Clique aqui para baixar a música.

Letra:

É fácil amar o Rio Grande
E desta terra se orgulhar
Pois pra conhecer o mundo não precisa viajar
Aqui cores, credos e raças
Vivem em perfeita harmonia
O gaúcho é um só povo
Mas de muitas etnias

Tem alemão, negros índios
Polacos, açorianos
Hermanos lá na fronteira
Na serra o povo italiano
Parece que todo o mundo
Mandou seus representantes
que escolheram este chão
E se tornaram imigrantes

Refrão
Viva o nosso Rio Grande
Viva todas etnias
Está na diversidade
A nossa grande magia
Obrigado aos que vieram
Nos fazer acreditar
Que um pouco de todo o Mundo
Se encontra “Num só lugar”

Até na arquitetura
O Rio Grande é diferente
Porque cada região
Germinou sua semente
E quem conhece já sabe
De cada povo seu jeito
Mas cada um se completa e se vive com respeito

Os imigrantes trouxeram
Seus costumes, sua essência
Trabalharam e fizeram
Do Rio Grande sua Querência
Com sabores e aromas
Que forjaram a tradição
E identificam o gaúcho
Com churrasco e o chimarão

Refrão
Viva o nosso Rio Grande
Viva todas etnias
Está na diversidade
A nossa grande magia
Obrigado aos que vieram
Nos fazer acreditar
Que um pouco de todo o Mundo
Se encontra “Num só lugar”

‘Num só lugar’ foi a canção escolhida por meio de concurso organizado pela Comissão Organizadora dos Festejos Farroupilhas 2022. A vencedora concorreu com mais nove canções,  tendo cumprido com todos os requisitos propostos no edital. A escolha foi feita por uma comissão avaliadora, composta pelos membros da Comissão.

A música é de autoria dos músicos Fernando Espindola (vocalista) e Thomas Facco (acordeonista), integrantes do grupo Alma Gaudéria. 

Condomínio Farroupilha

Reproduzo aqui tal qual foi postado no Blog do Léo Ribeiro. Porque esse desabafo representa não só essa questão do acampamento mas várias outras questões dentro do tradicionalismo que vimos dentro das instituições, tanto no macro (MTG, concursos) quanto no micro (CTGs, piquetes, grupos de cavalgada, eventos municipais) onde o foco parece se desviar para o lucro.

Leiam bem e reflitam comigo, não estou dizendo que não precisamos pensar no financeiro, até porque na sociedade em que vivemos tudo gira em torno de dinheiro. Estou dizendo que o FOCO está mudando e isso é bem preocupante, pois estamos ensinando isso aos que vem por aí: sim, a juventude. Essa juventude que acompanha, ensina e aprende, e mais que isso vai se espelhar no que fazemos hoje.

Se fala tanto em um tradicionalismo para todos e não se vê na prática. Repensemos nossas AÇÕES, tanto no micro quanto no macro. E que possamos continuar divulgando para mais pessoas.

CONDOMÍNIO FARROUPILHA

Este desabafo do tradicionalista Paulo Cremer, escrito posteriormente a reunião que definiu critérios para acampar após a privatização do parque, merece nossa reflexão. 

“Um dia alguém vai escrever a história do ACAMPAMENTO FARROUPILHA, este mesmo que foi criado por abnegados defensores das nossas tradições, esta gauchada que enfrentava frio e chuva, muitas vezes de baixo de uma lona, pisando no barro, ponteando pregos, e metendo serra nas costaneiras, num tempo que nem luz tinha, mas sobrava vontade de fazer.

Um dia vão contar a história do ACAMPAMENTO FARROUPILHA, que cresceu, amadureceu e criou representatividade no meio tradicionalista, sendo conhecido no Brasil e fora dele.

Um dia vão contar a história do ACAMPAMENTO FARROUPILHA, que se tornou possibilidade para grandes negócios, atraindo a atenção de empresas e também do poder púbico.

Um dia vão contar a história do ACAMPAMENTO FARROUPILHA, que sucumbiu aos interesses econômicos, que virou moeda de troca, que aos poucos tirou a oportunidade de acampar daqueles tauras que pisavam no barro, que ponteavam pregos, que metiam serra em costaneiras, sem luz, com pouca estrutura e muita vontade de fazer acontecer.

Um dia vão contar a história do ACAMPAMENTO FARROUPILHA, que deixou de honrar o legado deixado, motivo do ORGULHO GAÚCHO, esqueceram do que comemoravam no mês setembro e se entregaram SEM RESISTÊNCIA a tudo que lhes foi enfiado GOELA ABAIXO. 

O Acampamento em breve se chamará CONDOMÍNIO FARROUPILHA, onde só monta sua estrutura quem tiver com a guaiaca recheada, com bala na agulha!”

É da capital da melancia

Feliz em divulgar, mais uma vez, o trabalho do nosso amigo Allan Delavequia Lima, e agora uma premiação para o seu Programa Quando o Verso Vem Pras Casa.

Merecido Allan! Sabemos que fazer, divulgar, escrever e pensar cultura e tradicionalismo FORA DA CAIXA é bem difícil, mas essa vida de cultura é ótima. Fazemos amigos, parceiros de trabalho e luta! Sempre primando por uma cultura para todos!

Da capital da melancia, da capital dos trovadores para o mundo. Só o primeiro. Continue nesse caminho com humildade e aprendizagem levando cultura para todos os pagos!

Partitura do Hino Tradicionalista

Para promover o Hino Tradicionalista o MTG disponibilizou a partitura transcrita por Tomás Savaris, com notas musicais para acordeão.

O hino é cantado em cerimônias tradicionalistas e ainda vemos muitas prendas e peões sem conhecê-lo, por isso a importância de promovê-lo.

Amo esse hino pois ele consegue mostrar tanto uma lenda que faz parte da cultura gaúcha, homenageia Simões Lopes Neto com o Velho Blau, traz alguns valores queridos pelos riograndenses como cordialidade e, principalmente, mostra que SOMOS somente juntos, nos dando as mãos. Todas as gerações.

Em Desvendando o Hino Tradicionalista explicamos um pouquinho cada parte.

Que possamos divulgar para que mais pessoas conheçam e que tenham mais partituras transcritas para outros instrumentos musicais.

Clique e conheça a partitura do hino: https://bit.ly/PartituraHinoTradicionalista 

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